segunda-feira, 15 de outubro de 2012


 
 
 





Caríssimos amigos, irmãs e meus familiares
 

De volta ao ritmo de Timor Leste, já recuperada dessas diferenças climáticas e fuso horário e a cultivar a permanente motivação para continuar o percurso da missão, conjuntamente com a ir. Olívia e a ir. Lurdes, as aliadas e companheiras desta grande aventura que está longe de chegar à meta consumada. Apesar de alguma inação por falta de estruturas físicas e meios para iniciarmos um trabalho mais alicerçado num objetivo sonhado, já temos muitos passos dados.
A minha chegada a Maliana teve como primeira visita às Clarissas portuguesas de Monte Real que tinham chegado aqui no dia 13 de Setembro, uma visita coroada com um especial jantar na sua nova casa, transformado num mini-mosteiro. O jantar foi antecipado com a missa presidida pelo padre Hipólito, um jovem timorense que tem sempre uma atitude serena e contemplativa em tudo aquilo que partilha com as portuguesas. Em cada instante destes pequenos acontecimentos, sentimos que a unidade entre as pessoas é sempre uma grande vantagem, uma vantagem que nos faz ver que não estamos sós, neste mar de limitações e obstáculos que não cessam de nos bater à porta nas mais variadas maneiras.
E tudo se vai ajustando, até o desencaixotar dos muitos caixotes que eu própria tinha enviado de Portugal, porque afinal por 2,98 euros por cada 2kg de coisas, valeria a pena enviá-las para que, pelo menos o básico não nos falte, o que  me preocupa um pouco é que alguns que enviei em Agosto ainda não chegaram, mas irão chegar, tenho a certeza.
Fui revendo os lugares que rodeiam a residência a começar pelos vizinhos que se tornaram os nossos protetores e vigilantes quase noite e dia. A Amália, a bébé das fotos era uma recém-nascida em Junho, por pouco que nascia a caminho do hospital no jipe,  quando pelas 10 da noite transportámos a mãe. Seria o meu primeiro parto (pois também sou enfermeira), embora não tenha qualquer experiência desta assistência emergente naquela noite estava determinada a agir e relembrar essas noções que apreendi enquanto estudante de Enfermagem.
 Depois da visita a esta família, fomos percorrer a pé todo o território, agora transformado junto à ribeira fronteiriça.
A desilusão maior foi verificar o empasse da máquina do furo que se encontra no terreno da nossa futura residência desde agosto e agora quase a meados de Outubro continua sem grande evolução, porque,  segundo os técnicos, a broca fura e não sai porque encontra obstáculos nos 37 metros já furados. A máquina, cada dia sim, dia não, bloqueia e tem de ser arranjada e fica parada mais 24 horas. Enfim uma tensão que nos deixa quase desesperadas porque o tempo passa e de 2 em 2 dias acaba-se a água na rudimentar canalização da atual casa, onde habitamos. E  sem água, sem eletricidade durante muitas horas do dia como hoje, e em tantos empasses de espera, resta-nos esperar por aquele dia que irá acontecer e que vão cessar esses obstáculos básicos para que a coragem não falte.
Mas nem tudo é assim tão desolador. Temos o nosso Salão novo pronto a funcionar. Já iniciámos uma serie de atividades interessantes com o grupo de adolescentes a que demos o nome de “Grupo dos Pastorinhos de Fátima”. Todos os dias pelas 17,30  cerca de uma centena de crianças depois de terminar a escola vêm rezar o terço neste novo salão e bem se vê o entusiasmo deles por estarem num espaço físico novo sentados em cadeiras, que é outra oportunidade significativa, e ali rezam com o seu terço de plástico, objeto sagrado e amado por eles e que fazem questão de o trazer ao pescoço como se fosse um objeto da mais cara ourivesaria; sempre me impressionou isso.
A semana passada a ir. Olívia decidiu propor ao grupo dos Pastorinhos uma atividade de jardinagem, de casa cada um trouxe a sua flor e aqui as plantaram no espaço em redor do Salão, pelas fotos podem ter uma ideia de como foi interessante a reação deles.
Pensámos então em fazer o plano  de atividades para o grupo e na segunda-feira, ontem, a proposta foi fazer cada um, um desenho a exprimir o que gostam no grupo de Pastorinhos e assim desenvolver a sua imaginação. O curioso desta atividade que me surpreendeu imenso foi de fato a dificuldade que a maioria teve para esta aparente simples realização, depois de muito insistir cada um, a seu jeito e a medo, lá fez a obra-prima que agora está exposta no salão; alguns são realmente expressivos e até ternos.
 Não obstante estas pequenas centelhas da vida da missão, gostaria também de partilhar um pequeno episódio que me comoveu muito. Um dos nossos vizinhos anda a fazer a sua nova casa, aqui o espirito comunitário é um valor comum e bem definido entre a população, o problema mesmo é para além da falta de dinheiro e outras coisas básicas, não terem meios de transporte para acartar o material comprado para  a construção. Vieram-nos pedir para fazer esse frete em Maliana e lá fui eu, carregar o cimento, os ferros e outras coisas que de outra maneira não poderiam ser transportadas, para mim foi algo normal, sem grandes custos, sem qualquer dificuldade, mas quando cheguei ao lugar da construção o senhor, com tanta comoção, beijou-me as mãos a chorar agradecendo o favor, fiquei estupefata com tal atitude, já lá vão alguns dias e não me sai da cabeça tal gesto, embora já tenha ido de novo depois dessa vez buscar mais coisas para a dita construção pensei: “ao menos com este gesto de poder ter um carro posso ser útil a alguém e fazer a diferença em pequenos nadas para mim e que são tudo para os outros”.
O nosso dia termina sempre com um deslumbrante Pôr-do-sol que podemos ver descer em poucos minutos entre montanhas no horizonte que será nosso 24 sobre 24horas quando a nossa residência for habitada por nós.
E para os mais assustados/as e os mais corajosos/as apresento-vos finalmente um dos  residentes noturnos das paredes exteriores, a nossa pequena casa o Toky, de uma textura belíssima, este reptil sereno e original todas as noites afirma-se presente dizendo: “Tou aqui”, a medo lá o fotografei com o seu consentimento, desejo que o admirem.

E termino, um abraço e continuo a contar com o vosso apoio.

Tudo de bom para todos e todas vós.


Até breve.

 Ir Cristina

terça-feira, 9 de outubro de 2012


Visita ao Pe. Zezinho!

 

É meio-dia deste 5 de outubro de 2012, sexta-feira.

Eu, já sentada no ônibus da Pássaro Marrom, que me leva de volta a São Paulo, após a visita feita ao Pe. Zezinho, nesta manhã, procuro registrar nosso feliz encontro, para partilhar com os amigos. Não caibo em mim de alegria, por vê-lo feliz, bem disposto e cheio de esperança. Ele repousa “no seu costumeiro quarto”, junto ao Hospital Antoninho Marmo, das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, em São José dos Campos, muito bem cuidado pela sobrinha Débora e Irmã Mirian, acompanhado pela fonoaudióloga e alguns médicos. Estava mesmo fazendo exercícios com a fonoaudióloga, quando lá cheguei (hora marcada, às 10h30min). Ele me recebeu alegre, com um sorriso aberto: “Chegou ela!” Perguntaram-lhe: ela quem? Quem é essa?... Prontamente respondeu: “Essa é a Irmã Miria”. Lembrou meu nome, o que é excelente sinal de melhora. Fiquei ainda mais feliz por vê-lo se recuperando, melhor do que eu esperava, louvado seja Deus!

De Notbook nas mãos, treina e pronuncia as palavras, escreve e prepara seu novo livro “O púlpito que dói.” De que trata? – pergunto-lhe. Ao que responde: É sobre as reflexões homiléticas dos nossos padres, que devem tratar da Palavra de Deus, do Evangelho, sem se distanciar...”

Contou-me com detalhes como tudo aconteceu naquela quarta-feira de 19 de setembro, quando voltou de viagem cansado, mas ainda foi trabalhar e preparar uma entrevista. O que lhe agravou o problema é a diabetes, que exige cuidado e disciplina, coisas que aliás não lhe faltam. Grato a Deus e consolado, dizia: “ A isquemia afetou apenas o meu lado esquerdo do cérebro, o das palavras e da memória. O direito, que é o da arte, da criatividade e da música, está perfeito.”

Comparando sua situação de hoje com os dez primeiros dias, quando não lembrava mais de nada, ele se percebe ótimo, melhorando gradativamente... Um processo longo, recuperação lenta, mas acontecendo de modo muito satisfatório, graças ao seu otimismo, disciplina, hábitos saudáveis, notável paciência e incondicional colaboração. Percebe-se sensível melhora a cada dia! Por enquanto, até o final do ano, não poderá assumir shows, mas ficar longe, em repouso... Serão talvez ainda uns 2 meses de tratamento intenso, para recuperar a fala e a memória.  Às vezes as palavras demoram a ser lembradas ou lhe fogem; está reaprendendo a dizer  o nome das coisas, das pessoas, ora lembradas, ora esquecidas. “Aprender é comigo mesmo”, completa Pe. Zezinho, em sua humildade e simplicidade, sabedoria e confiança em Deus!
Quando lhe falei dos lugares por onde andei nessas duas últimas semanas, sobretudo Mozarlândia, no interior de Goiás, e Juazeiro do Norte, no Ceará, e de quanto o povo reza e pergunta por ele; de que o visitava em nome de todos os que lhe querem bem e cantam suas músicas, ele agradeceu sorrindo: “Sou grato a todos, pela amizade e pelas orações. Preciso, eu mesmo, reencontrar as palavras e despertar a memória que me fugiu. Mas se Deus quiser, com tantas preces, chegarei lá... Já estou melhorando bem.”

Ajudou-me a cantar “Deus é bom”, CD que lhe levei de presente. A foto que tiramos juntos foi com sua permissão: ele mesmo escolheu o melhor lugar, no jardim. Também registrei a presença de Irmã Mirian e a sobrinha Débora, que o acompanham de perto e cuidam de tudo com carinho.

Posso dizer que meu coração exultou de alegria ao vê-lo com brilho nos olhos e sorriso nos lábios, abrindo os braços para me acolher. No abraço que nos demos, eu tive presente cada amigo, todos os que lhe querem bem e rezam cantando suas canções, e que gostariam também de estar com ele naqueles privilegiados momentos. Partilho com vocês, povo de Deus, amigos nossos, do canto e da música, este encontro abençoado, para que também se alegrem, continuem rezando e confiando a Deus nosso cantor e poeta maior!

 Irmã Miria T.Kolling                                                                                              
São Paulo, 5 de outubro de 2012.

domingo, 7 de outubro de 2012


CASAL ALVD EM ANGOLA




 
Olá amigos.
Por cá tudo bem.
A Fátima continua com as aulas de costura.
 Agora na 2º semana já estão a fazer pequenos arranjos e a fazer moldes para fazerem saias e blusas. Eu e o padre Amândio vamos fazendo pequenas ou grandes reparações. Hoje foi o portão da entrada que precisa de uma argola para a noite colocarmos um cadeado para dar mais segurança. De tarde fomos a capela de Santo  André com o padre Vicente. Estavam la mamás que andam na costura e o padre também anunciou. No final cantaram um cântico de agradecimento, Coisa linda
Fátima e Domingos

segunda-feira, 1 de outubro de 2012





IR CRISTINA MACRINO

     NOVAMENTE EM MALIANA

 
Queridos amigos e família

Desejo que estejam  bem, agora já com um novo ano iniciado, cheio de trabalhos, responsabilidades, nestes tempos difíceis que se vivem e sentem.
Aproveito a minha viagem de Singapura para Díli para partilhar convosco o trajeto desde Lisboa  e também o meu sentimento de gratidão destes quase 3 meses em Portugal, meu país e minha Pátria!
   A viagem tem corrido bem graças a Deus! De Lisboa ao Dubai nada de inesperado, as condições de conforto da Emirates Airlines são uma maravilha, o pior mesmo foi ser um horário noturno e o sono  aperta imenso. Do Dubai a Singapura, tentei dormir quase todo o tempo. Mas bom mesmo foi na caminha do hotel, aí foi mesmo a sério  e dormi. Mas todos sempre em pleno cumprimento do horário, nem um só minuto de atraso em nenhum país! Já se vê o azul do céu deste lado do mundo e o sol bem quentinho que me espera!
Foi bastante difícil deixar Portugal, para vos dizer a verdade muito doloroso até, mas no entanto trago comigo os sorrisos, o apoio, o entusiasmo e a solidariedade de todos vós que expressaram neste tempo que estive em Portugal  e em tantos lugares por todo o país aonde estive e também aonde não consegui ir por falta de tempo.
Quero manifestar a minha profunda gratidão a todas as comunidades da minha Congregação que por diversas formas expressaram carinho e amizade pela missão  em Timor. Dedico um especial carinho às irmãs doentes que, com a sua limitação, me acarinharam e me acolheram com muita amizade. Na campanha pela Missão, gostaria de agradecer às paróquias de S. Martinho do Campo, S. Salvador do Campo e S. Mamede de Negrelos na pessoa do Pe. Miguel Coelho toda a solidariedade e generosidade. Nestas paróquias senti-me em casa, é sempre uma alegria enorme deslocar-me lá, porque aquela gente é verdadeiramente genuína e cheia de alegria e revelam uma grandeza enorme pelas causas humanitárias, nos 10 anos que lá vivi e servi pude constatar esta mesma realidade. Agradeço ao Grupo das Joaninas DANCE, todo o empenho e alegria em querer ajudar a missão na sua forma artística, obrigada Esmeralda por tudo, à Pautília vai também o meu muito obrigado pelas dádivas que vão fazer as delícias dos meninos e jovens de Memo – Maliana.
Um especial e carinhoso obrigada à empresa “ideias2003”, de Vilarinho na pessoa da Orquídea, proprietária da mesma, assim como o seu marido e família que tanto se tem empenhado no apoio à nossa missão, não tenho palavras suficientes, deles trago para Timor o gigante mapa mundo que tão generosamente nos ofertaram para colocar no futuro Centro Juvenil, que será sem dúvida uma marca para o conhecimento de muitos, agradeço a campanha feita aos funcionários, a vendas dos brindes e aquele entusiasmante sorriso de tudo fazer por valer a pena, nunca o esquecerei, obrigada Orquídea e família! Quero agradecer à ALVD, aos seus representantes e à professora Eveline de Almada,  que nos têm apoiado arduamente na recolha de livros para a nossa futura biblioteca da missão e livros escolares para os professores e alunos das escolas de Memo. Agradeço o transporte dos livros, os contactos nas bibliotecas na região da grande Lisboa e todo o esforço que os mesmos representantes fazem pela recolha contínua de mais livros e ofertas de enciclopédias que vão enriquecer a nossa biblioteca. Sem a ALVD  e a professora Eveline seria muito menos improvável esta já conseguida dádiva.
 Agradecemos à Porto Editora os dicionários doados e a promessa do seu apoio à missão, é uma alegria saber que este sentimento de solidariedade não passa indiferente em tantas pessoas e instituições.
O meu agradecimento vai também para a diocese de Viseu nas três paróquias do Pe. José António Almeida: Ínsua, Esmolfe e Trancoselos. A experiência muito interessante, a atenção e a generosidade daquela gente foi espantosa, e recordo muitos gestos e palavras que guardo no coração e com toda a beleza daquela região.
 Agradeço às queridas colegas e amigas Enfermeiras Graça Brás do IPO do Porto, enf. Fátima de Castelo Branco e Enf. Bernardete pelo interesse e ajuda. À enfermeira Graça que sempre me comoveu cada vez que me recebeu no IPO ou por contacto telefónico, quero dizer obrigada com a alma cheia de alegria por ela existir, tenho a certeza que sem alguém como ela, o mundo, a sociedade e a saúde em Portugal, seria muito mais pobre. Obrigada Graça, vales mais que o ouro perecível. Deus abençoa-te por todo o bem realizado. A enfermeira Fátima vai um abraço pelo entusiasmo e apoio e à querida e amiga Enfermeira Bernardete vai um saudoso abraço de gratidão também pelo seu apoio e generosidade.
Quero ainda agradecer à Farmácia Iriense – Fátima, na pessoa da Dra. Rosarinho também o empenho e afetuoso apoio por nós em Timor. Recebeu-me sempre com um interesse admirável, e o que fez e faz pela missão Deus vai recompensá-la, tenho a certeza.
À Sónia Repolho, uma jovem que se dedica com tanto ardor à pastoral, agradeço por tudo, e desejo que o festival das Sopas no próximo dia 13 de Outubro seja mesmo um sucesso. Deste lado, comerei em espírito a sopa por Timor e todos vós podeis participar e saborear as mesmas na Torrinha, Reguengo do Fetal.
Terminei a campanha pela missão no Bárrio – Alcobaça, minha paróquia natal, fui recebida de braços abertos na pessoa do pároco, Pe. Fialho e pela colaboradora da catequese a querida Madalena Sofia, foram de facto momentos únicos que me deixam muitas saudades da minha gente, os que me viram crescer e viver, obrigada a esta grande Terra! A vós jovens deste grupo do Bárrio, continuem assim animados e empenhados em criatividade e testemunhas de Cristo!
À minha Família que tanto amo, por vós choro de saudades, são a minha riqueza preciosa, e vós meus amigos, essa longa lista que me faz sentir sempre acompanhada apesar dos 20 000 kms de distância, preciso de vós e sem vós não irei resistir aos momentos escuros. Seremos uma força unidos e Timor naquele recanto de Loromoro será um novo sol nascente no sorriso de milhares de seres humanos.Entretanto cheguei a Díli e agora já em Memo – Maliana, cheguei num cansaço monumental em que o sono foi mesmo a sua marca forte, tenho dormido sem parar nestes 3 dias e vou recuperando pouco a pouco. Já revi todos os que aqui me aguardavam e realmente foi uma alegria sentir a sua alegria.
 Observo com este tempo seco, umas paisagens mais áridas, mas por outro lado uns acessos mais fáceis e menos perigosos porque não têm lamas e terras caídas, uma realidade com algumas diferenças mas o calor é intensamente tórrido.
 E despeço - me por hoje, para todos vai o meu abraço e já muitas saudades, na certeza porém de que estaremos unidos a viver por uma causa que vale realmente a pena.
Até muito em breve com mais novidades da missão!

 Ir Cristina Macrino


Timor, 1 de Outubro de 2012

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O CUIDADO NO ENQUADRAMENTO ÉTICO


I.                   Considerações iniciais


Como primeira nota introdutória há que dizer que quando abordamos o cuidado referimo-nos ao outro como outro, ao outro como um tu e não meramente ao outro como um prolongamento de mim mesmo ou como o meu cesto do lixo.
Num primeiro grupo, podemos apontar duas atitudes: a primeira realça um estado de escravidão (exploração) do outro. A segunda atitude sublinha a lei da selva, ou seja, ignora o outro. Cada um que se desenrasque. Qualquer uma destas posições apontadas são não éticas.
Já, num segundo grupo, podemos apontar a ética dos mínimos ou ética da justiça: dar a cada um o que lhe pertence (Adela Cortina, John Rawls). Muitas vezes, estamos convencidos de que fazemos um favor ao dar ao outro o que lhe pertence.
Numa segunda ética, apontamos a ética da gratuitidade que ultrapassa o bem-estar, o comodismo, o confronto, o conforto, o prazer e situa-se mais numa linha do bem como felicidade, como paz, bondade, horizonte e sentido.
Às vezes, os adolescentes estão mais numa linha de receber e os adultos numa linha do dar.
Em terceiro lugar, podemos apontar a ética do voluntariado como uma simbiose, uma síntese entre a ética da justiça (bem-estar, ordem) e a ética da gratuitidade (dar serviços).
Passamos de uma ética dos bens, dos deveres para éticas teleológicas ou da felicidade. A ética procura uma morada acolhedora para toda a humanidade.
No entanto, Edgar Morin assinala que hoje há uma exagerada autolatria, cuja orientação é individualista e relativista. Já Paul Ricoeur expõe o dinamismo de uma subjectividade aberta à alteridade e à responsabilidade.Estamos hoje a palmilhar a subjectividade e a alteridade.



II.                A palavra cuidado


A palavra cuidado vem do latim cura. Na forma mais antiga do latim, a palavra cura escreve-se coera. Esta palavra é usada num contexto de relações de amor e de amizade, para exprimir uma atitude de cuidado, de preocupação, de inquietação pela pessoa amada ou por um objecto de estimação. Outros estudos filológicos indicam que a palavra cuidado deriva de cogitare – cogitatus que significa pensar, colocar atenção, mostrar interesse, revelar uma atitude de preocupação.
Como se depreende, a palavra cuidado inclui dois significados muito próximos: o primeiro, uma atitude de desvelo, solicitude, atenção para com o outro; já o segundo significado incide mais numa inquietação, numa preocupação do envolvimento afectivo com o outro por parte da pessoa que cuida.
A palavra cuidado é um modo de ser, a forma como a pessoa se estrutura e se realiza no mundo com os outros.
Esta noção de cuidado como preocupação e solicitude de que o cuidado é essencial para o ser humano ganha expressão literária na Roma do final da era pré-cristã.
A fábula mito encontrada numa colectânea mitológica do segundo século da era cristã tem influenciado a ideia de cuidado na literatura, na filosofia, na psicologia, na ética através dos séculos.
Kierkegaard, embora de uma forma incipiente, é o primeiro filósofo a usar a noção de cuidado ou preocupação. Introduz as noções de preocupação, interesse e cuidado para contrapor o que considera a excessiva objectividade da filosofia e teologia formuladas no começo do século XIX.
Este filósofo recorre à reflexão desinteressada e à consciência. Aquela é um simples processo de classificar coisas. Já a consciência está preocupada com quem conhece e com os conflitos que podem advir a partir do que é conhecido na reflexão.
Este filósofo também recorre à noção de preocupação para exprimir a natureza do ser humano e as suas escolhas morais. A ética começa com o indivíduo que, sendo obrigado a agir, toma sobre si o interesse e a preocupação. Sem a preocupação ou o cuidado, a acção não é possível.
Em Heidegger, um dos originais filósofos do século XX, o cuidado não é apenas mais um conceito, mas o eixo central. É considerado o filósofo do cuidado por excelência. O desenvolvimento da sua noção de cuidado deriva do tradicional mito de origem greco-latina do cuidado.
Os ensinamentos de Kierkegaard acerca da preocupação e do cuidado tem grande influência em Heidegger, mas com uma diferença.
Enquanto Kierkegaard vê o cuidado de uma maneira individualizada, subjectiva e psicológica, Heidegger assume de uma forma abstracta e ontológica para descrever a estrutura básica do ser humano.
O cuidado tem para Heidegger dois significados: angústia e sentido.
O “cuidado angústia” (sorge) retrata a luta de cada um pela sobrevivência e por galgar uma posição favorável entre os demais seres humanos.
O “cuidado solicitude” (fürgsorge) significa voltar-se para, interessar-se pela terra, pela humanidade.
Portanto, o cuidado como angústia impulsiona a luta pela sobrevivência e já a solicitude permite revelar as plenas potencialidades de cada ser humano.
Influenciado por Heidegger, Rollo May no seu livro Love and Will escrito em 1969, argumenta que os seres humanos experimentam um mal-estar geral e uma despersonalização que resultam em cinismo e apatia.
O cuidado, entendido como um estado no qual algo tem importância, é o antídoto para a apatia; é alguém com a dor ou a felicidade do outro.
O cuidado deve ser a raiz da ética. Já que a boa vida vem do que merece cuidado.
Erikson influenciado também por Heidegger elabora uma justificação psicológica para o cuidado. Propõe uma teoria humanista do desenvolvimento psicológico onde o cuidado é tema central.
Na sétima fase de Erikson, a maioridade, a crise leva ao confronto entre a capacidade gerativa e a estagnação. A virtude que emerge desta crise é o cuidado. O cuidado adulto abarca a tarefa gerativa de cultivar a próxima geração, de preocupar-se com o que é gerado por amor.
Para este autor, a ética do cuidado envolve a batalha entre a disponibilidade e a indisponibilidade para incluir as pessoas ou os grupos na capacidade gerativa. No primeiro caso, manifesta-se uma força de simpatia que é a virtude do cuidado e no segundo, uma inclinação de antipatia, uma tendência à rejeição.
Em 1971, o filósofo norteamericano Milton Mayeroff, propõe no seu livro, On caring, uma apresentação das experiências do cuidar e ser cuidado. Para ele, cuidar do outro é ajudá-lo a crescer numa relação mútua, não importando se o outro é uma pessoa, uma ideia, um ideal, uma obra de arte ou comunidade. Cuidar é basicamente um processo e não uma série de serviços orientados à consecução de determinados objectivos. O cuidado favorece a devoção, a confiança, a paciência, a humildade, a honestidade, o conhecimento do outro, a esperança e a coragem. Desta maneira, os valores morais são vistos como um processo de cuidar e crescer.
Há outros paradigmas éticos que contribuem para o desenvolvimento da ética do cuidado. A ética da simpatia, desenvolvida pelos filósofos do século XVII e começo do século XVIII como Butler, David Hume, Adam Smith, Schopenhauer e Max Scheler, representa um deles. A palavra grega sympatheia (simpatia) quer dizer “sentir com”, refere-se a um sentimento de preocupação pelo bem-estar do outro. Alguns autores incluem a simpatia, a empatia e a compaixão como elementos do cuidado.
Cuidar de alguém é prestar-lhe atenção solícita e ter uma disposição de afectividade. Simone Weil, filósofa francesa que viveu de 1909 a 1943 afirmava que a atenção é um esforço que consiste em suspender o próprio pensamento, deixando-o vazio e pronto para receber outro em toda a sua verdade.


III.             Carol Gilligan

Como já referimos, a noção de cuidado remonta a épocas anteriores, com obras literárias da Antiga Roma e fontes mitológicas e filosóficas que conformam as suas raízes.
A literatura da ética do cuidado presta pouca atenção antes da década de 80.
Carol Gilligan contrasta a orientação moral primária de meninos e homens com meninas e mulheres, referindo que há tendências diferentes de empregar estratégias. Distingue a ética da justiça (homens) da ética do cuidado (mulheres).
A ética do cuidado para Gilligan é constituída pelos seguintes elementos: consciência da conexão entre as pessoas; entendimento da moralidade como consequência do relacionamento; a comunicação é o modo de solucionar os conflitos.
Após a publicação do livro “Uma voz diferente: psicologia da diferença entre homens e mulheres da infância à idade adulta” de Carol Gilligan em 1982, onde aborda a perspectiva do cuidado no desenvolvimento moral das mulheres, emerge uma ética do cuidado. Esta questiona as concepções éticas vigentes para valorizar as acções, motivações e as relações positivas.
Enquanto os princípios e direitos individuais se referem mais à ética da justiça, outros elementos enquadram mais na ética do cuidado.

Ética do cuidado
Ética da justiça
Abordagem contextual
Abordagem abstracta
Conexão humana
Separação humana
Relacionamentos comunitários
Direitos individuais
Âmbito privado
Âmbito público
Reforça o papel das emoções e sentimentos
Reforça o papel da razão
É relativa ao género feminino
É relativa ao género masculino


Portanto, segundo Carol Gilligan, há autores que não deram voz Às mulheres como, por exemplo Erikson. Kohlberg. Há outros que lhes deram voz como Horner, Chodorrow, Lever, Gassen, entre outros.
Analisar uma ética do cuidado é pensar essa voz diferente que se inicia na separação/conexão. A necessidade de separação é apresentada para o homem como a condição necessária ao estabelecimento da sua masculinidade.  A identidade feminina só se estabelece na conexão definitiva com a figura materna.
Enquanto os homens não estabelecem conexões que os prendem nas suas atitudes, preocupação feminina direcciona-se ao cuidado e à preservação dos relacionamentos.
“A masculinidade define-se através da separação, enquanto a feminilidade define-se através do apego; a identidade do género masculino é ameaçada pela intimidade; ao passo que a identidade do género feminino é ameaçada pela separação” (Gilligan, 1982…).
Para Gilligan, a voz diferente que as mulheres possuem é a voz do cuidado, em contraposição à voz dos homens como voz da justiça.
Embora grande parte do livro de Gilligan se dirija só às mulheres, o último capítulo “Versões da maturidade”, lembra aos leitores que a “voz do cuidado” também está nos homens. O que temos é uma preponderância nas mulheres. Por isso, podemos ouvir nos homens, além da arrogância, da lógica, palavras da voz feminina como: conciliador, compreensivo, interessado, ardente. Justiça mais para os homens e cuidado mais para as mulheres. No entanto, temos que reconhecer que homens e mulheres têm orientação de justiça e orientação de cuidado.
Quer Piaget quer Kohlberg sintetizam a ética kantiana (justiça), preocupação da razão e o conhecimento em descobrir a lógica (justiça).
Na ética do cuidado, há o exercício de virtudes como o amor, a tolerância, a compaixão, a fidelidade, a temperança e a generosidade.
Gilligan considera importante a ética do cuidado e da generosidade. Cuidar do outro é dar-lhe mais do que lhe é de direito, mas não ser paternalista.



IV.             Ética do cuidado na abordagem de Nel Noddings


Esta autora no seu livro: Caring: a femminine approach to ethics and moral education, editado em 1984, defende que os seres humanos querem cuidar e ser cuidados. Portanto, há um cuidado natural acessível a toda a humanidade.
A capacidade de agir eticamente é entendida pela autora como uma virtude activa que requer dois sentimentos: o primeiro é o sentimento natural de cuidado e o segundo ocorre em resposta à lembrança do primeiro.
Cuidar requer que a pessoa responda ao impulso inicial com um acto de compromisso.


Moçambique, 24 de Setembro de 2012

Adérito Gomes Barbosa

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

 

HOMILIA NO BATIZADO DO SOBRINHO NETO
JOÃO HENRIQUE



 
A Mara Isabel, médica de profissão, quase especialista em gastroenterologia, é filha da nossa irmã Maria Angelina, casada com o Augusto da Cunha Barbosa. O seu marido é o médico Pedro Henrique e o menino a ser batizado foi o João Henrique.
Embora sendo o meu irmão o oficiante do batismo do nosso sobrinho neto, pediu-me para fazer a homilia (suponho que seria para eu fazer qualquer coisa na cerimónia), na véspera à noite. Lá rabisquei o que a seguir transcrevo:
1.Estamos aqui hoje, neste momento, a celebrar, porque somos cristãos, porque somos cristãos com fé, como é intitulado o meu último livro, presente nas livrarias.
Dizia o grande pensador espanhol Ortega Y Gasset que há sempre o latente e o patente. Por detrás de uma pintura, de uma escultura, há sempre a beleza, a bondade ou o sofrimento. O iceberg esconde mais gelo do que aquele que mostra.
O cristão apresenta expressões visíveis da fé (patente), mas o alicerce, a raiz, a convicção que constituem o latente são muito mais profundas. É a dialética da Carta de S. Tiago: fé com obras e fé sem obras.
2. O segundo pensamento refere-se à vida. O evangelho de Lucas fala da alegria sentida pelos pais de João Batista: Zacarias e Isabel. Podíamos acrescentar aqui a alegria sentida pelos pais do João Henrique. E aqui há um paralelismo entre a família de João Henrique e a família de João Batista. O filho é João numa família e noutra. A mãe de João Batista é Isabel. A mãe do João Henrique é Mara Isabel. O pai do João Henrique não é Zacarias, mas é Pedro Henrique, tendo em comum com o filho, Henrique.
No Antigo Testamento, o nome é dado à nascença. Aqui em João Batista, o nome é dado por Deus através do anjo. Em hebraico, João é Iohanan que significa “dom de Deus”, “cheio da graça de Deus”, “agraciado por Deus”, “a graça é misericórdia de Deus”, “Deus perdoa”.
Como sabemos, na Bíblia temos duas grandes personalidades com o nome de João. João Batista que batizou Jesus Cristo em água no Rio Jordão. Temos também o apóstolo João que foi um dos Doze Apóstolos. Foi o apóstolo que viveu mais tempo. A tradição refere que viveu quase 100 anos e foi um dos poucos que não foi martirizado.
João é um nome que se usa muito em várias línguas (temos vários na nossa família) e o seu correspondente feminino também é comum como a Joana (também na nossa família).
3. Vamos celebrar o batismo do João Henrique. Este ano o papa Bento XVI lançou o chamado ano da fé, intitulando o seu documento: Porta da Fé. E a porta da fé é o batismo. S. Pedro define os batizados como pedras vivas, como pedra angular para a construção de um edifício espiritual.
É o que esperamos do João Henrique ao aderir oficialmente à Igreja Católica: ser vivo nas traquinices, mas ainda mais vivo na fé, na catequese, na vida.
E termino com um pensamento grego: por mais que saltemos para o ar, nunca podemos alcançar o céu. Necessitamos de uma mão que nos seja estendida do alto e nos alcance.
Que os pais, familiares e amigos ajudem o João Henrique a dar a sua mão à mão de Deus que vem do alto.
Adérito Gomes Barbosa scj
Crestuma, 16 de Setembro de 2012 (13horas).


sexta-feira, 7 de setembro de 2012


 
 
 
 
 
Prefácio

Ao celebrar 50 anos do início do Concílio Ecuménico Vaticano II, o Santo Padre Bento XVI convida-nos a viver um Ano da Fé. Sabemos que, para quem acredita, todos os dias, meses e anos são tempo para viver, celebrar, testemunhar e anunciar a fé que professamos. Compreendemos, porém, que o tempo que vivemos nem sempre se tem manifestado tempo fácil para darmos forma visível ao nosso testemunho de fé.
Importa, por isso, abrirmos o coração e a inteligência ao apelo do Santo Padre expresso na Carta apostólica «Porta da Fé» e tudo fazermos a nível pessoal, familiar e comunitário para vivermos intensamente este Ano da Fé, de 11 de outubro de 2012, dia aniversário do início do Concílio, a 24 de novembro de 2013, domingo de Jesus Cristo, Rei e Senhor do Universo.
Quando se comemoram cinquenta anos do início do Concílio Vaticano II recordo e revivo a alegria e o entusiasmo com que, nesse tempo, acolhemos nesse tempo e vivemos momento a momento esse grande acontecimento eclesial, nascido do coração e do sonho profético de João XXIII. Faz-nos bem regressar ao Concílio, reler os seus textos, reviver os seus dinamismos renovadores e concretizar com desassombro as suas intuições pastorais. Urge, por isso com renovado vigor, continuar o Concílio presente e atuante na Igreja para que esta seja segundo a vontade de Jesus, seu Fundador, e sob a inspiração do Espírito Santo, verdadeiro sacramento de salvação da humanidade e necessária luz dos povos.
Deste encanto sentido nos tempos conciliares guardo o fascínio aí encontrado pela Igreja de Jesus Cristo que via abrir as suas portas a um mundo imenso de gentes em procura e lhes manifestava vontade de partilhar as suas alegrias e esperanças, as suas ansiedades e inquietações. São a estas portas da fé que continuam a bater multidões de crentes e não crentes que têm direito a encontrar na Igreja a palavra e os sacramentos de uma vida em comunhão com Deus.
Lembra-nos o Santo Padre Bento XVI, na Carta apostólica sobre o Ano da Fé, que “a «Porta da Fé» (cf At 14, 27), que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na sua Igreja, está sempre aberta para nós. Atravessar aquela porta implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira. Este caminho tem início no baptismo” ( Porta Fidei, n.º 1).
Importa, assim, diz-nos o Santo Padre «redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo” (Porta Fidei, n.º 2).
É este caminho que o Padre Adérito Gomes Barbosa tem procurado na sua vida, na sua vocação e na sua missão e nos ajuda agora, também, a percorrer. A sua aprofundada reflexão, transportada para uma vasta produção escrita, e a sua longa experiência pastoral, particularmente dedicada à formação dos jovens, oferecem-lhe autoridade para nos propor novos caminhos à vivência e ao testemunho da fé cristã.
“Cristãos com fé” é um novo livro que agora nos coloca nas mãos, recorrendo a uma metodologia muito própria, ao jeito de um itinerário. Trata-se de um convite a seguir um percurso de reflexão e de vida, passo a passo, de etapa em etapa, momento a momento, com tempo demorado e sereno para ouvirmos a voz de Deus, entendermos os sinais dos tempos e percebermos as intuições profundas que na planície, nos átrios ou nas estradas da vida podemos encontrar e descobrir.
O autor sabe que a fé é dom de Deus, que se recebe pelo batismo, se alimenta pela palavra e pelos sacramentos, que tem na experiência viva da comunidade cristã, que é a Igreja, a sua expressão mais bela e que, em permanência, desafia o crente ao dom da própria vida, a exemplo de Jesus de quem é seguidor e discípulo.
Trata-se, por isso, de uma proposta pedagógica para abri portas a quem não crê e para ampliar horizontes de vida, de formação e de missão a quem já tem fé. E porque a fé a nada de quanto é humano pode ser insensível ou indiferente, compreende-se que «Cristãos com fé» aponte caminhos de exigência da verdade da profissão da fé da Igreja que nos alegramos de afirmar e de autenticidade na coerência da vida daqueles que testemunham a fé.
Mais do que argumentos de fé hoje o mundo procura testemunhos de fé. Na grandeza dos factos vividos e na verdade dos testemunhos conhecidos radicam hoje as novas escolas da fé onde diariamente se aprende e apreende a fé através da beleza e da verdade daqueles que a tornam viva e eficaz através das suas obras.
São as comunidades crentes e as pessoas em cujo rosto e coração se espelha a fé que são hoje as melhores portas da fé. Assim aconteceu com os discípulos de Jesus, no início dos tempos apostólicos. Assim se revelaram as primeiras comunidades cristãs, exemplares na autenticidade da fé, na beleza da vida fraterna e na assídua participação de todos os que acreditam em Jesus Cristo, vivo e ressuscitado. Assim se percebe hoje pela vida dos santos e sempre que de perto nos aproximamos dos que vivem de Deus e espalham à sua volta este doce fascínio da fé que dá sentido à vida e valor à missão.
«Cristãos com fé» não ilude nem recusa perguntas necessárias, não propõe respostas imediatas nem fáceis e a ninguém dispensa do esforço da caminhada e do trabalho da procura. «Cristãos com fé» reconduz-nos à Palavra de Deus, aponta-nos referências oportunas de ampla bibliografia, convida-nos a relermos a vida e a entendermos sinais e símbolos mesmo que nos pareçam mudos e sobretudo aponta-nos como meta o «Coração de Jesus». Compreendemos que o Coração de Jesus, de acordo com o Evangelho e com o carisma da espiritualidade dehoniana muito própria dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus, a cuja Congregação o autor pertence, seja o lugar obrigatório aonde conduz o crescimento na fé e na vida daqueles que sabem que só ali repousa e descansa quem deseja viver a fé em todas as suas dimensões e exigências.
Termina este livro com uma bela oração sobre a fé: a oração de Paulo VI, o mesmo Papa que nos ensinou um novo Credo, igualmente assente no Símbolo dos Apóstolos e na Profissão de Niceia e Constantinopla, agora feita Credo do Povo de Deus, um povo peregrino no tempo e testemunha da fé em todos os tempos.
Com os apóstolos e com os discípulos de todos os tempos continuamos a viver e a professar a mesma fé e com João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI continuamos a sentir que o mundo precisa mais de testemunhas do que de mestres.
Queremos ser «Cristãos com fé» conscientes e decididos a proclamar e a viver o evangelho das bem-aventuranças para que a Igreja seja «porta da fé e da bem-aventurança» para todos quantos procuram Deus e para todos quantos tendo-o encontrado mais necessidade sentem de O procurar.
Aveiro, 15 de agosto de 2012, Solenidade da Assunção da Virgem Maria

 
António Francisco dos Santos

Bispo de Aveiro, Presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e da Doutrina da Fé