sábado, 31 de março de 2012



30 de Março - 1 de Abril


                  GRUPO DA PROFISSÃO DE FÉ       
            NO SEMINÁRIO DE ALFRAGIDE



O Seminário de Alfragide tem acolhido uma variedade de grupos quer para fazer uma experiência de espiritualidade, quer para a sua formação na fé. É neste sentido que a 30 de Março e 1 de Abril estiveram mais de 50 jovens com duas animadores, sendo uma delas a alma da paróquia da Póvoa de Santa Iria. É a minha "prima", pelo nome, e  chama-se Rita Barbosa. Não é de esquecer que o pároco dessa paróquia é o incansável e zeloso dehoniano P. Santos.

Adérito Gomes Barbosa scj





sexta-feira, 30 de março de 2012

Da cegueira colectiva à aprendizagem da insensibilidade

Mia Couto

Quero, antes de mais saudar os professores.
Durante anos, fui professor. E quando digo isto há uma emoção fortíssima que me atravessa. Eu não sei se há profissão mais nobre do que a de ensinar. E digo ensinar porque existe uma diferença sensível entre ensinar e dar aulas. O professor no sentido de mestre é aquele que dá lições.
Os professores que mais me marcaram na vida foram os que me ensinaram coisas que estavam bem para além da matéria escolar. Não esqueço nunca um professor da escola primária que um dia leu, comovido, um texto escrito por ele mesmo. Logo na declaração da sua intenção nasceu o primeiro espanto: nós, os alunos, é que fazíamos redações, nós é que as líamos em voz alta para ele nos corrigir. Como é que aquele homem grande se sujeitava àquela inversão de papéis? Como é que aceitava fazer algo que só faz quem ainda está a aprender?
Lembro-me como se fosse hoje: o professor era um homem muito alto e seco e, nesse dia, ele subiu ao estrado da sala segurando, nos dedos trémulos, um caderno escolar. E era como se ele se transfigurasse num menino frágil, em flagrante prestação de provas. Parecia um mastro, solitário e desprotegido. Só a sua alma o podia salvar.
Depois, quando anunciou o título da redação veio a surpresa do tema que parecia quase infantil: o professor iria falar das mãos da sua mãe. Éramos crianças e estranhámos que um adulto (e ainda por cima com o estatuto dele) partilhasse connosco esse tipo de sentimento. Mas o que a seguir escutei foi bem mais do que um espanto: ele falava da sua progenitora como eu podia falar da minha própria mãe. Também eu conhecera essas mesmas mãos marcadas pelo trabalho, enrugadas pela dureza da vida, sem nunca conhecerem o bálsamo de nenhum cosmético. No final, o texto acabava sem nenhum artifício, sem nenhuma construção literária. Simplesmente, terminava assim, e eu cito de cor: “é isto que te quero dizer, mãe, dizer-te que me orgulho tanto das tuas mãos calejadas, dizer-te isso agora que não posso senão lembrar o carinho do teu eterno gesto.”
Havia qualquer coisa de profundamente verdadeiro, qualquer coisa diversa naquele texto que o demarcava dos outros textos do manual escolar. É que não surgia ali, em destacado, uma conclusão moral afixada como uma grande proclamação, uma espécie de bandeira hasteada. Aquele momento não foi uma aula. Foi uma lição que sucedeu do mesmo modo como vivemos as coisas mais profundas: aprendemos, sem saber que estamos aprendendo. Lembro este episódio como uma homenagem a todos os professores, a esses abnegados trabalhadores que todos os dias entregam tanto ao futuro deste país.
Comecei por saudar os professores. Parece que me esqueci dos estudantes. Ou que os coloquei em segundo plano. Mas não.
Todos somos professores, mesmo que não o saibamos. Perante os outros, perante os nossos pais, perante os amigos, perante nós mesmos, com bons ou maus exemplos, com tristes ou gratificantes lições, todos somos professores. Um dos maiores professores do nosso tempo é um homem que nunca deu aulas. É um homem que ensinou a sermos mais humanos. Mais do que isso, é um homem que ensinou a ter esperança num mundo tão desesperançado. Esse professor de toda a humanidade, de todas as raças e credos, é um africano. Chama-se Nelson Mandela. A sua vida foi uma interminável lição. Mandela é hoje uma bandeira mundial não apenas porque foi um político que dignificou a política, mas porque nos dignificou a todos nós, seres humanos. 
Deixem-me falar de Mandela. Este homem, que agora está doente e cansado, viveu encarcerado durante vinte e sete anos. Vinte e sete anos são mais do que o tempo de vida da maior parte dos presentes nesta sala. Vinte e sete anos de prisão é tempo suficiente para criar raiva, ódio e insuperáveis ressentimentos. Contudo, este homem converteu esse potencial negativo em força construtiva e reconciliadora. Um dos motivos de inspiração de Mandela foi ter encontrado num poema que se chama “Invictus”. Vou ler esse poema.
Do ventre da noite que tudo cobre
Negra como o fundo da cova escura
Agradeço aos deuses de todos os céus
Por quanto a minha invencível alma perdura

Ante as garras do cruel acaso
Nem eu tremi, nem o medo me turvou
Sob o peso da ameaça e da desumana violência
Eu sangrei mas a minha alma nunca se curvou

Não importa se a passagem é estreita
Não importa quantos castigos devo penar
Eu sou o dono do meu destino
Eu sou o capitão da minha alma.

Estes versos, meus amigos, foram uma espécie de suporte moral que deram força a Nelson Mandela. Vezes infinitas o prisioneiro 46664 da Ilha de Robin regressou a estes versos para não sucumbir. Como escritor e poeta, dá-me grande alegria saber deste poder da poesia. Neste caso, há qualquer coisa que deve ser acrescentada.
Na verdade, este poema foi escrito em 1875. O seu autor não foi um poeta sul-africano, não foi sequer um poeta africano. Quem escreveu estes versos foi um britânico chamado William Ernest Henley. Estes versos viajaram para além de séculos e continentes e iluminaram a esperança de um homem que, em vez de se vitimizar e procurar a vingança, nos deu uma eterna lição da crença nos outros. 
Eu venho falar para a Escola de Comunicação e Artes. Por isso me demorei nestes episódios. Porque acredito que a comunicação e a arte são ferramentas de mudança tão importantes como a política. Mandela fez da política um instrumento de comunicação da verdade. Ele fez da política uma obra na arte da reconciliação, numa nação dividida pelo preconceito. Talvez a cultura seja o mais poderoso e duradouro instrumento de intervenção social. No nosso continente isso é bem claro. Vejamos um exemplo:
Desde há 50 anos, quando começaram a acontecer as independências, o nosso continente conheceu mais de 210 presidentes. O desafio que vos faço é o seguinte: digam o nome de 10 (apenas 10) destes dirigentes que se tenham notabilizado como figuras humanas de referência. Terão dificuldade. Será muito mais fácil enumerarmos artistas e intelectuais dignos de serem lembrados. E é aqui que a figura de Mandela é tão importante para nós, africanos. Podemos não nos lembrar de muitos políticos africanos que nos dignifiquem. Mas o nome de Mandela basta para compensar toda essa ausência e devolver o orgulho de sermos quem somos.

Caros amigos, vou entrar agora no tema central desta alocução.
Todos os dias centenas de chapas de caixa aberta transitam por esta cidade que parece afastar-se do seu próprio lema “Maputo, cidade bela, próspera, limpa, segura e solidária”. Cada um destes “chapas” circula superlotado com dezenas de pessoas que se entrelaçam apinhadas num equilíbrio inseguro e frágil. Aquilo parece um meio de transporte. Mas não é. É um crime ambulante. É um atentado contra a dignidade, uma bomba relógio contra a vida humana. Em nenhum lado do mundo essa forma de transporte é aceitável. Quem se transporta assim são animais. Não são pessoas. Quem se transporta assim é gado. Para muitos de nós esse atentado contra o respeito e a dignidade passou a ser vulgar. Achamos que é um erro. Mas aceitamos que se trata de um mal necessário dada a falta de alternativas. De tanto convivermos com o intolerável, existe um risco: aos poucos aquilo que era errado acaba por ser “normal”. O que era uma resignação temporária passou a ser uma aceitação definitiva. Não tarda que digamos: “nós somos assim, esta é a maneira moçambicana.” Desse modo nos aceitamos pequenos, incapazes e pouco dignos de ser respeitados.
O caso dos chapas é apenas um exemplo, uma ilustração de um processo que eu chamaria de “construção do inevitável”. E é simples: aos poucos, os passageiros do “chapa” deixam de ser visíveis. Na nossa sociedade essas pessoas já contavam pouco. É gente pobre, gente sem rosto, gente que não aparece na TV nem no jornal. Essa gente surgirá no jornal quando o “chapa” se acidentar. Mas aparecerá sem voz e sem nome. Um simples número para se contabilizar feridos e mortos. Em contrapartida, outras coisas ganharam brilho na nossa sociedade. Por exemplo, adquiriram toda a visibilidade os carros de luxo de uma pequena minoria. Deixamos de ver os “chapas” mortais, mas estamos atentos aos sinais de ostentação dessa minoria.
O assunto que quero abordar convosco hoje é esta operação que banaliza a injustiça e torna invisível a miséria material e moral. Esta vulgarização faz perpetuar a pobreza e faz paralisar a história. Saímos todos os dias para a rua para produzir riqueza mas regressamos mais pobres, mais exaustos, sem brilho, nem esperança. De tanto sermos banalizados pelos outros, acabamos banalizando a nossa própria vida.

Estamos perante uma espécie de formatação mental e moral. A mensagem é a seguinte: querem dizer-nos as nossas doenças sociais são incuráveis. Resta-nos viver de remendos e expedientes.

Visitou-me um escritor amigo da Nigéria. Ele percorreu as cidades de Moçambique e ligou-me de Pemba. A primeira coisa que ele disse: Estou maravilhado! Vocês têm estações de gasolina a funcionar! O seu espanto espantou-me a mim. Principalmente porque esse assombro provinha de um cidadão da Nigéria, o maior produtor de petróleo de África. Só depois entendi. O que passa na Nigéria – depois de 50 anos de exportação de petróleo - é que as cidades nigerianas não possuem aquilo que para nós é comum: estações de gasolina vendendo gasolina. As bombas de combustível naquele país estão quase todas fechadas e a gasolina é vendida em garrafas e jerricans nos passeios públicos. Para alguns esse é um processo natural em África. Mas não é. O que sucedeu foi o seguinte: o governo subsidiou os preços dos combustíveis mas não foram os mais desfavorecidos que lucraram mais. Foi uma parte da elite nigeriana que se apoderou dos circuitos formais e desviou para os mecanismos informais a distribuição e venda do combustível. Uma vez mais, os ricos tornaram-se ainda mais ricos. Mas não é a questão politica que eu quero trazer aqui. A questão é que, para o cidadão da Nigéria, aquele sistema de venda, à maneira do dumba-nengue, se tornou normal. Ver bombas de gasolina a funcionar numa nação bem mais pobre como é Moçambique foi, para ele, um motivo de surpresa. Eu vejo muito africanos proclamarem que os mercados informais são a única maneira que África sabe fazer comércio. Que apenas nas barracas sabemos comer e beber. É mentira. A dumba-nenguização da economia é uma estratégia escolhida para fugir dos impostos, para escapar das obrigações para com o património público. Quando o meu amigo nigeriano voltou a Maputo ele disse-me o seguinte:
- A minha surpresa não foi tanto o que eu vi em Moçambique. Foi sim o que já não sabia ver na Nigéria.
O principal aliado dos tiranos é a cultura da aceitação. Talvez alguns de vocês sabem que sou um dos autores do Hino Nacional. Quando entregamos o Hino para aprovação na Assembleia da Republica nós não podíamos imaginar que alguns deputados se sentissem incomodados com a passagem da letra que diz: Nenhum tirano nos irá escravizar. É claro que a letra não fala do presente. Mas um hino é feito para durar. E quem pode garantir que um candidato a tirano não assaltará a nossa futura história? O melhor modo de prevenir esse risco não é apenas consolidar a democracia política. É investir numa cultura viva, numa cidadania de construção do futuro. O que me interessa falar aqui, numa Escola de Arte e Cultura é a dimensão cultural das nossas pequenas e grandes misérias.
A invocação da chamada “africanidade” é uma das armadilhas mais usadas pelos tiranos. No Malawi atacaram e rasgaram a roupa de mulheres pelo simples facto de andarem de calças. Mulheres de calças não é uma coisa africana – foi o que invocaram os agressores. Em nome de África se agrediram e mataram pessoas apenas porque eram homossexuais. Em nome da pureza africana se continua a impedir que, apenas por serem do sexo feminino, milhares de crianças não prossigam os seus estudos. Em nome de África se cometem os maiores crimes contra África. O nosso continente é feito de passado e tradição, sim. Mas é feito de modernidade. É feito de mudança. Como todos os outros continentes.
As dinâmicas de mudança confrontam-se com uma identidade feita de passado e tradição. Tudo isto tem a ver com o processo da construção do inevitável. Esse processo envolve o mecanismo da acomodação e o mecanismo da invisibilidade. A acomodação tem várias facetas. Sabemos que está errado, mas nada fazemos. Porque temos medo. Porque achamos que não tem a ver connosco. Ou porque fazemos cálculos. É melhor calar e ser promovido. É melhor recolher uns magros favores em troca do nosso silêncio e da nossa cumplicidade.
O mecanismo da invisibilidade foi tratado por José Saramago no livro O ensaio sobre a cegueira. Nós estamos doentes, não porque os olhos tenham alguma deficiência, mas porque deixamos de saber olhar. Deixamos de querer ver. E deixamos de nos ver a nós mesmos. No fundo, este é o desfecho desse processo de alienação. Tornamo-nos cegos. Quem não vê, aceita que outros lhe digam como é o mundo.
Eu rabisquei uma lista de fenómenos sociais que se tornaram invisíveis em Moçambique. A lista é bem extensa. Mencionarei apenas de alguns.
A violência contra os mais fracos
O primeiro desses fenómenos é a violência. Dizemos com frequência que somos um povo pacífico. Isso é verdade. Mas os povos todos, do mundo, são pacíficos por natureza. O que muda é a sua história. Assim, é verdade que somos um povo pacífico, mas também é verdade que foi esse povo pacífico que fez uma guerra civil que matou cerca de um milhão de pessoas. A guerra terminou em 1992, e essa data é talvez a mais importante da nossa história recente, depois da Independência Nacional. Terminou o conflito militar, mas não terminaram outras guerras silenciosas, invisíveis e perversas.
Hoje somos uma sociedade em guerra consigo mesma. Os alvos dessa guerra são sempre os mais fracos. Estamos em conflito com as mulheres, com as crianças, com os velhos, estamos em guerra com os pobres, com aqueles que não têm poder. Somos uma sociedade obcecada pelo Poder. Quem não tem poder é como quem circula na traseira do chapa: não existe. Tudo tem uma leitura política, o mais pequeno detalhe é um recado, uma definição de hierarquias. Quem chega primeiro à reunião, onde se senta, quem não comparece à cerimónia, com que carro chegou, de quem se faz acompanhar, tudo isso são sinais de poder. Nas ruas sou chamado de patrão, sou chamado de “boss”, porque a minha cor da pele é tida como um sinal de Poder. O vendedor de viaturas insurgiu-se com a escolha de um carro que eu queria comprar. Deixe que escolho um carro compatível com o seu estatuto.  
Estamos em guerra connosco mesmos e o primeiro desses alvos é curiosamente uma maioria: as mulheres. Em Moçambique há mais um milhão de mulheres que homens. Mas ao nível das percepções, os homens dão pouca importância a essa verdade. Eles são chefes, os donos, e olham as mulheres como uma pertença privada. As mulheres, por outro lado, ainda pedem licença para existir. A maioria das mulheres que são objecto de violência dos maridos acha que isso não é um crime. Acham normal, acham natural. Ser agredida faz parte do seu destino, da sua imutável natureza.
E conto-vos três episódios reais, que retirei da nossa imprensa apenas nas últimas semanas:
Em Cabo Delgado 17 homens violaram uma mulher que se atreveu a atravessar o acampamento onde se praticavam os rituais de iniciação. Da parte das autoridades locais houve uma inaceitável passividade. Foi necessária insistência da família e de ONGs para que houvesse uma insuficiente resposta.
Em Manica dois jovens violam sexualmente uma mulher no sétimo mês da gravidez.
Em Tete um homem mata a criança de dois meses e esfaqueia gravemente a mulher porque a meio do dia ele chegou a casa e a mulher recusou fazer sexo com ele. O jornalista da televisão que entrevista o confesso culpado sugere uma quase legitimidade do ato ao perguntar: “o senhor devia estava necessitado não é verdade?”.
Reclamamos a violência da rua, mas é mais provável uma mulher ser agredida dentro de casa do que fora de casa. É mais provável uma criança ser agredida e violentada no espaço da sua família. Esta tendência não sucede apenas em Moçambique, mas no mundo. As estatísticas são reveladoras e assustadoras: cerca de 70 por cento dos actos de violência contra a mulher acontecem dentro da casa. Mais de 60 por cento dos assassinatos de mulheres são cometidos pelos seus companheiros ou ex-companheiros. Em todo o mundo, uma em cada três mulheres ou já foi ou irá ser agredida ou violentada. Não é pois Moçambique que é afectado de modo particular. O que sucede é que para nós essa violência é legitimada por razões que se dizem culturais. Nós ainda banalizamos muito facilmente. É ainda prevalecente a ideia de que a mulher é que é culpada, porque ela é quem provoca a violência. Ainda achamos que este assunto não tem a ver connosco, que é para ser denunciado pelas ONGs. Isto é, desresponsabilizamo-nos. Mesmo sendo mulheres, achamos que este assunto tem a ver com os outros. Mesmo sendo homens, que têm mães, irmãs e filhas, achamos que isto não tem nada a ver connosco.  

OUTRA GUERRA - AS VIUVAS
Sugiro que leiam o livro de Fabrício Sabat, chamado As viúvas da minha terra, para ficarem com uma ideia do crime generalizado que é cometido contra mulheres que vivem um momento dramático da sua vida. E nesse exacto momento de fragilidade, são assaltadas pelos próprios parentes. Levam-lhes os bens, os filhos, o sossego.

CASO DAS VELHAS
Acusadas de feitiçaria, roubaram-nas durante a vida, fizeram sumir a sua infância e juventude e, no final, roubaram a possibilidade de uma velhice tranquila, usufruída com os netos e as lembranças. Está longínqua a imagem de África como um lugar especial porque os velhos são respeitados.

GUERRA CONTRA OS GAYS E AS LÉSBICAS
Moçambique nem é dos países menos tolerantes. Há países que consideram formal e legalmente um crime o simples facto de ser ter uma orientação sexual diferente. Mesmo assim, há entre nós, uma enorme intolerância.

CASO DOS DOENTES MENTAIS
Nós estamos tão ocupados com outras doenças que esquecemos que não é apenas o HIV SIDA que tem implicações do ponto de vista do estigma social. As doenças mentais são outro mal não visível. Não creio que existam estatísticas da prevalência de doenças mentais em Moçambique. Mas a média em África é de 14 por cento da população.

ALBINOS  
Vou contar-vos um episódio real. Conheci um pedreiro que chamarei apenas por Fabião, que certa vez executou uma obra para minha casa. Um dia, uma moça albina veio à minha porta pedir água. O pedreiro desceu do escadote onde trabalhava para me dar conselhos: “é melhor não dar, ou usar um copo que depois deita fora”. Quando lhe perguntei porquê, ele respondeu: “aquela tjidajna é alguém que tem muitos problemas”. E reproduziu os habituais mitos e preconceitos sobre os albinos. No final confessou: “ainda bem que na minha família nós não temos disso».
Passaram-se anos e a semana passada o mesmo Fabião ligou para mim a perguntar se era possível entrar sem convite na exposição “Filhos da Lua”, na Fortaleza de Maputo. Ele ouviu na rádio que a exposição tinha por tema “os albinos” e estava muito interessado em levar a sua filha a esse evento. “É que a minha filha nasceu albina.” Fabião não podia nunca imaginar ser pai de uma tjidjana. Mas foi. E ele agora, por amor a essa menina, queria enfrentar junto com ela os preconceitos que ele mesmo guardava dentro de si. Chamei Fabião e ofereci-lhe que levasse para a sua filha dois discos. Um de Salif Keita, outro do nosso Aly Fake. E disse “esses são os melhores copos de água. Refrescam a alma”.
Muitas vezes pensamos que essas diferenças vivem fora de nós. A diferença está dentro de nós. Um em cada 35 moçambicanos é portador do gene do albinismo. Um em cada 35 pessoas é portador dessa gente. Nenhum de nós sabe à partida se poderá ser pai ou mãe de uma criança albina.

GUERRA COM OS MORTOS
Até aqui falei de conflitos com mulheres, crianças, velhos. Mas todos esses segmentos sociais são compostos por gente viva. O mais triste é que a nossa sociedade entrou em guerra com os seus próprios mortos. Este é o sintoma mais grave da nossa patologia social: passamos a maltratar até os nossos mortos. O que acontece nos nossos cemitérios é um atentado contra os mais básicos princípios morais. As famílias enterram os seus entes queridos e são obrigadas a retirar o mais ínfimo valor que acompanhe o falecido. Sabem que no dia seguinte, o caixão foi assaltado, o morto foi despido. As próprias jarras de flores são quebradas antes de serem colocadas para prevenir que sejam roubadas e vendidas. Não contentes em assaltarem os vivos, há gangs que se especializaram em roubar os mortos. Nem depois do último suspiro estaremos a salvo dos ladrões.
Meus amigos
Eu disse que estávamos em guerra connosco mesmos. Esta guerra doméstica compõe-se de duas violências. A violência daqueles que agridem. E a violência dos que se calam. Marthin Luther King disse O que me entristece não é apenas o clamor dos homens maus. É o silêncio dos homens bons.
A lista das nossas guerras domésticas estende-se por mais domínios. Os exemplos que escolhi ilustram o facto de que não somos a sociedade pacificada que pretendíamos ser. Há um percurso enorme a percorrer e esse caminho é sobretudo uma viagem interior. Essa viagem só acontecerá se vocês souberem ver, souberem não aceitar. Tudo o que aqui disse pode ser resumido em dois textos pequenos de autores alemães. Peço-vos que escutem. O primeiro é uma parábola e diz o seguinte:
“Um dia, vieram e levaram o meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram o meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram o meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e levaram-me mim. Nessa altura, já não havia mais ninguém para reclamar.”
O segundo texto é um apelo na forma de verso, escrito pelo dramaturgo Bertolt Brecht:

"Nós pedimos-vos com insistência:
Nunca digam - Isso é natural.
Diante das barbaridades de cada dia,
Numa época em que corre sangue
Num tempo em que a arbitrariedade tem força de lei,
Num momento em que a humanidade se desumaniza
Não digam nunca: Isso é natural
Se aceitamos as coisas como naturais
este nosso mundo torna-se imutável

Caros amigos

O nosso tempo também está em guerra contra os jovens. À nossa frente, e não falo apenas de Moçambique, se anunciam tempos difíceis. À nossa frente está um futuro magro em que parece que apenas alguns podem caber. O que nos sugerem é que briguemos uns com outros para ver quem cabe nessa estreita porta. Mas talvez seja possível criar um outro futuro mais amplo.
Vão ser assediados. Por forças políticas que estão mais preocupadas com o Poder do que com a resolução efectiva dos problemas. Por forças que se lembram dos jovens quando se trata de colher votos. Por forças que falam aos jovens, não falam com os jovens.
Vocês são jovens. Ser jovens é uma condição inerente, que se exerce sem esforço. Mais do que jovens, sejam diferentes. Tragam para o nosso tempo o inesperado, o que é novo, o que é historicamente produtivo.
Uma nova classe está povoando o poder político em Moçambique. São os papagaios. Reproduzem o discurso dos chefes. A maior parte deles são jovens. Mas são jovens de alma envelhecida. Os papagaios podem pensar que o seu futuro está assegurado porque olham o país como se fosse um aviário. Mas o nosso futuro como nação não se constrói senão com ousadia, com vitalidade e um infinito respeito pelos outros.
Ficamos muitas vezes à espera, ficamos à espera que o governo faça. Temos medo de tomar iniciativa. Achamos arriscado. Não agimos porque dizemos que faltam recursos, falta orçamento, falta autorização do chefe. Mas existem lições que parecendo pequenas podem tocar alguém para toda a vida.
O professor primário que leu uma redacção sobre as mãos calejadas de sua mãe não imaginava que estaria marcando para sempre um aluno seu. O poeta William Henley não poderia imaginar que versos seus poderiam sustentar, cem anos mais tarde, a vontade de lutar de um africano que iria mudar o destino de milhões de pessoas.
Fazemos o que fazemos não porque sejam grandiosas iniciativas mas porque necessitamos mudar as coisas e melhorar o mundo. Fazemos o que fazemos porque, como diz o poema, nós queremos ser donos do nosso destino e capitães da nossa alma colectiva.


ALVD REUNIU-SE EM LISBOA


Em ordem a preparar-se para intervenções em Angola e Moçambique reuniram-se no dia 25 de Março, no Seminário de Alfragide, mais de 20 voluntários para mais uma etapa de formação.
Alguns preparam-se para Angola (Viana), outros para o Niassa (Moçambique) e outros ainda para o Gurué – Zambézia (Moçambique).

Desta vez além da constituição dos grupos de intervenção, estivemos a reflectir sobre os leigos e a relação com a espiritualidade que o P. Dehon difundia: O Coração de Jesus.


Adérito Gomes Barbosa, scj

segunda-feira, 26 de março de 2012


25 ANOS DE CASADO DO NOSSO IRMÃO

O nosso irmão António (Adérito, Angelina, Manuel e António)
fez 25 anos de casado a 21 de Março de 2012.


Assim, o António e a Cândida celebraram as Bodas de Prata na Igreja paroquial de Crestuma, exactamente a mesma, onde se casaram há 25 anos, sendo já pároco o P. Domingos Aido.
Os seus três belos filhos (Lígia, Joana e João) não se cansavam de mostrar a sua felicidade. Os irmãos e irmãs da Cândida com os respectivos familiares e os seus pais pautaram pela sua presença.
Já da parte do António, só o irmão Adérito e a Angelina (com marido e filhos) puderam estar presentes.





É que o P. Manuel Barbosa encontrava-se em trabalho em Lourdes (França), não deixando de endereçar, nesse mesmo dia, os parabéns ao casal em festa.


Foi uma festa simples com celebração e refeição, mas muito significativa e simbólica.
Em convívio, com toda a família, na casa de Fioso, partiu-se o bolo e abriu-se o champanhe.

Adérito Barbosa

quinta-feira, 22 de março de 2012

A VIA SACRA

A via sacra é uma expressão latina que significa o caminho sagrado. A wikipedia chama-lhe via crucis, ou seja, o caminho da cruz. De facto, as catorze ou quinze estações da via sacra apresentam os diversos momentos do sofrimento de Jesus, sobretudo, a paixão e a morte de Jesus que vai culminar na ressurreição.
A Igreja aconselha esta prática da via sacra na Quaresma, particularmente na sexta-feira.
Esta prática começou no tempo das cruzadas (século XI), onde os fiéis que visitavam a Terra Santa, procuravam percorrer os lugares sagrados da paixão de Cristo.
Depois, ao querer-se reproduzir no Ocidente criaram-se as estações, fixadas no século XVI,  que ainda hoje se mantêm.
Se quisermos lembrar o essencial, o kerigma, o fundamental da fé em que temos de acreditar é a paixão, a morte e a ressurreição. É este o conteúdo da nossa fé. E foi assim que Jesus Cristo salvou a humanidade e salvou cada um de nós.
Quem não acreditar na paixão, na morte e na ressurreição de Jesus Cristo que fez tudo para nos salvar, não é verdadeiro cristão.
A via sacra começa pela condenação de Jesus à morte, continua com Jesus a carregar a cruz, e apresenta as três quedas devido ao peso da cruz.
Os encontros com a sua mãe, com o Cireneu, com a Verónica e com as mulheres de Jerusalém são encontros com representantes da humanidade.
Já o despojar-se das suas vestes, a pregação na cruz, a morte na cruz, a descida da cruz, a sepultura e a ressurreição marcam estas grandes mistérios da paixão, da morte e da

Adérito Gomes Barbosa, scj

segunda-feira, 19 de março de 2012

TARDE DEHONIANA EM ALFRAGIDE




 Como já  vai sendo tradição, no domingo mais perto do 14 de Março, data do aniversário do nascimento do P. Dehon, realiza-se uma tarde de encontro. Neste ano, data do 169º aniversário do nascimento do P. Dehon, realizou-se no auditório do Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Alfragide, uma mesa redonda, onde o P. João Chaves apresentou a Mensagem do Superior Geral da Congregação para o dia 14 de Março.
Decorreram alguns testemunhos de leigos e consagrados, inclusive uma intervenção do Superior Provincial sobre a presença dehoniana em Angola.
À eucaristia e ao lanche ajantarado, estiveram mais de 100 pessoas presentes das nossas paróquias e grupos.
Este encontro fazia parte da formação dos voluntários dehonianos que se preparam para irem para Moçambique no verão de 2012.
 No entanto, no próximo domingo dia 25 de Março, haverá momento de formação da ALVD quer no Porto quer em Lisboa.
 
Adérito Gomes Barbosa, scj


quarta-feira, 14 de março de 2012

De Timor

Crónica de Memo
15 de Março de 2012

Desejo que estejam bem e que em Portugal esse sentimento de crise vá pouco a pouco esvanecendo-se, porque creio e sei que não é muito mais que um sentimento plural, social cultivado por todos nós e não só pela política nacional e internacional. Isto pode parecer-vos uma inconsciência minha, mas garanto-vos que não é.
 Estamos sem luz eléctrica há dois dias e como tal torna-se uma maratona escrever-vos só com a bateria do computador, mas espero conseguir.
Esta minha missiva, tem um objectivo diferente das outras, não vou contar-vos peripécias, ou episódios de risco, é uma simples reflexão que não posso calar! Há dias a Superiora Geral enviou-nos um testemunho sobre o sentido de felicidade, perspectivado por diferentes pessoas de diferentes estados de vida, muito belo e interessante: valorizamos não o ter mas o ser em relação aos outros e a Deus, parece até simples, mas todos sabemos que não é, porque carregamos a montanha do consumismo, a montanha do parecer, a montanha do  poder e assim viemos em permanente competição uns com os outros, gastamos imensa energia e até conseguimos conquistar inimigos, não é assim?
Em Díli, como sabem ficamos hospedadas no Centro Juvenil Padre António Vieira, há sorrisos por todos os cantos daquele Centro, da Mana Lina, das outras manas que lá trabalham, das crianças que por lá passam, das jovens, tendo o essencial, dão tudo o que possuem em si mesmos, simplicidade, serenidade, fé. Tendo em conta também que carregam na sua experiência e vivência pessoal, dor, guerra e o massacre que a maioria viveu naqueles fatídicos anos de invasão e que a maioria de nós, não só em Portugal mas provavelmente na maioria do mundo em geral, tem uma ideia global. Muitas destas pessoas só ficaram com a roupa que tinham no corpo, mais nada e com eles os missionários que arriscavam a própria vida para os ajudar e dar ânimo, muito duro isto, e esperavam ao menos que não lhe tirassem a vida, um verdadeiro êxodo até a terra prometida, quando se tornaram independentes. Quando olho para elas, até me arrepio toda por dentro e tenho a certeza que muitos de vós sentiriam o mesmo.

A Madalena é uma jovem especial deste Centro Juvenil e quero falar-vos dela. A sua história de 21anos é uma história difícil e inimaginável para nós, digo isto porque a nossa insaciedade permanente, e falo por mim, faz-nos andar deprimidos por causa daquilo que não temos, ora a Madalena não tem família, não tem casa, não tem bens e não tem membros superiores e inferiores, as fotos e o filme que envio em anexo, é bem expressivo. Quando a vi caminhar sobre os seus próprios joelhos que são o seu meio de deslocação fiquei sem palavras, olhou-me e com um sorriso natural de quem se dá conhecer cumprimentou: “bom dia irmã”! todos os dias pelas 18horas, a madalena reza com as crianças do centro e orienta a oração que é sempre rezada em português. O filme que a Mana Lina fez dela a alimentar-se, é um expressivo documento de como esta menina é uma lutadora, uma menina de ouro, um Cristo entre nós, um louvor ao criador naquele corpo pequeno e tão limitado. Não podia ficar indiferente a este despojamento humano tão profundo.
Temos constado que as famílias vivem com menos de 1dolar por dia, sem frigorifico, sem carros próprios, os táxis são motorizadas e as deslocações quer chuva ou faça sol são feitas a pé ao longo de quilómetros. Quando vamos a Maliana o nosso jipe vem à pinha com estudantes, que vêm da escola  e aproveitam esta preciosa boleira na carroçaria, quando saem do jipe agradecem com veneração este bem recebido. E falamos nós de crise e de dificuldades em Portugal? Teremos de rever as nossas prioridades e perceber afinal como amamos a vida e somos felizes nela, até nós, mesmo estando aqui sem grandes acessos, muitos dias sem comunicações básicas, temos mais muito mais do que eles.
Continuem felizes, porque a felicidade que se defende é muitas vezes uma felicidade infeliz.
E tive sorte, a bateria ainda não abaixo.
Um abraço e até breve. Boa viagem até à Pascoa.
Timor. Ir Cristina Macrino
            Homilia na Festa do P. Dehon

          Alfragide, 14 de Março de 2012
                       
                      A. Barbosa
      ( No dia em que completa os seus 59 anos)

1.O dia 14 de Março, dia do aniversário do nascimento do nosso fundador é um momento de festa e um dos momentos mais marcantes não só para os religiosos dehonianos, mas também para toda a família dehoniana, constituída pelas outras componentes de consagradas ou mesmo leigas e leigos. O dia da sua morte a 12 de Agosto e a festa do Coração de Jesus completam, a meu modo de ver, a tríade marcante para qualquer ser humano que beba esta espiritualidade.
2.Quando me dirigia a La Capelle para acompanhar os religiosos na preparação aos votos perpétuos fiquei chocado como as sepulturas dos nossos primeiros religiosos eram tratadas no cemitério, para não dizer abandonadas, assim como o quarto do fundador. Parece-me que esta sensibilidade pelas datas e pelos lugares, símbolos tipicamente dehonianos, estão a ser substituídos por reuniões e workshops típicas de uma sociedade despida de símbolos e de espiritualidade, sejam estas reuniões da congregação ou não.
3.Escreve José Saramago que a humanidade tem que começar com uma relação mais humana, mais limpa e com mais conhecimento do outro. Sem isto, digo eu, o cristianismo é verniz. Continua o escritor comunista a dizer que as três doenças da actual civilização são a progressiva incomunicação, uma revolução tecnológica que não temos tempo para assimilar, nem sabemos a onde nos leva (anda tudo desnorteado atrás da telemática) e uma concepção da vida que nos leva unicamente para o triunfo pessoal e individual.
Talvez estes pensamentos de Saramango possam ser úteis para termos e tomarmos consciência que terra pisamos, que carros conduzimos, que projectos gerimos, que província queremos efectivamente em Portugal.
4.Palavras chave da espiritualidade dehoniana. Escreve o autor americano Ken Wilber que a nossa vida é marcada pela dependência, pela independência e pela interdependência. É nesta última dimensão que situamos os grandes princípios da nossa espiritualidade.

Espiritualidade. Antes de mais, a espiritualidade é experiência de vida, um encontro com Deus, reforçado com retiros, meditações, adoração, palavra de Deus, sacramentos, adornada com fórmulas, orações e estruturas como a Igreja, regras…Se houver palavras sem coração, sem factos, sem acções, sem compromissos, não há verdadeira, não há nenhuma espiritualidade. O primeiro e grande elemento para uma relação com Deus, sem o qual nada interessa, nada tem valor, é mesmo a espiritualidade, que não é só o culto dirigido a Deus. A espiritualidade é então a experiência do dom de Deus, da sua graça, acolhida em nós que a manifestamos pelo culto. A espiritualidade é todo este processo de Deus para nós e de nós para Deus. É que a liturgia só é verdadeira se é a experiência do encontro entre a graça de Deus que desce sobre nós e o culto que prestamos a Deus. Se não for assim, estamos a lançar palavras ao vento.

Amor. Entendemos o amor como a capacidade de ver a necessidade do outro, solidarizar-se com ele, sofrer com ele, mas também fazer algo para que essa necessidade seja ultrapassada. Não é por acaso que a palavra respeito, em latim respicere significa olhar para. E certeza, que não andamos com um espelho atrás de nós. No amor, conseguimos ler também este movimento da saída do egoísmo, da saída do meu mundo, da minha terra, libertar-me das minhas amarras, para estar completamente disponível para os outros. Há que proporcionar a comunhão com Deus e com os irmãos.

Oblação. Já a oblação é um gesto concreto desse amor no sentido de dar, no sentido de dar-se incondicionalmente e totalmente a Deus. Mas não nos podemos entregar totalmente a Deus, ouvindo os gritos desesperados da humanidade, continuando o nosso caminho, concentrados apenas nas nossas coisas pessoais, às vezes nas nossas questiúnculas: porque não fechaste a porta? Já disse que sempre que passas deves fechar a porta. Há que parar e aliviar este ser humano para que pare de gritar pelo seu sofrimento. Esta oblação é dar-se por Deus aos irmãos. É levar Deus aos irmãos. É levar os irmãos a Deus. É elevar a vida dos irmãos até Deus, oferecendo-nos ao Pai como oblação viva, santa e agradável (Rm 12,1). O Ecce Venio (eis que venho ó Deus para fazer a vossa vontade) e o Ecce Ancilla (eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a vossa palavra) são o grande modelo para a comunhão da nossa vontade com a vontade de Deus. A nossa vida é um dom integral, de toda a pessoa, de todas as partes, não só da razão, mas também do coração. Mais. Esta disponibilidade de Jesus e de Maria marcam o estilo do dehoniano religioso ou leigo que vai buscar a graça (kairós) de Deus por excelência na eucaristia para combater o tempo (chronos) cronometrado que robotiza, mecaniza o ser humano. Sabem melhor do que eu que o deus Chronos devorava os seus próprios filhos.

Carisma. A espiritualidade tão cara ao P. Dehon é a contemplação do coração trespassado, donde brotam sentimentos como o dom total de si, a gratuitidade, a misericórdia, a paciência, o perdão, a ternura sobretudo pelos mais necessitados. Portanto, o coração trespassado de Cristo é o sinal do amor, do dom de si, recria o homem e a mulher à imagem de Deus.

Missão no mundo. A missão consiste em percorrer um itinerário, um caminho, um projecto, com os irmãos, sobretudo com os que estão mais próximos. Não é instalação. Não é sedentarismo. É nomadismo. Nesta caminhada, há que provocar espaços de comunhão nas consciências e nas situações concretas. Há que destruir as rupturas, os conflitos, as tensões, as distâncias, com espaços de comunhão. Só assim, os frutos de amor podem manifestar-se no nosso coração. Parecem interessantes os valores básicos da missão tais como a comunhão, a oblação, a simplicidade, a solidariedade, a partilha e a missionariedade. No entanto, a operatividade da missão encontra-se mais na evangelização, na promoção humana (não podemos falar do evangelho a quem está com fome ou com sede), na espiritualidade e no testemunho de vida. O serviço no mundo será profético ou não será serviço nenhum, como adesão ao projecto de Deus, intervenção com estabilidade e consistência; no mundo e dentro do mundo como sal, luz e fermento (ChL nº 15), para elevar a dignidade da pessoa humana. No entanto, há valores que temos que cultivar, tais como a competência profissional, o sentido cívico, a integridade moral, o espírito de justiça, a serenidade, a fortaleza de ânimo. Neste sentido, vivemos como vocação, sim para transformar o mundo em espírito de serviço e não de ambição ou poder, sim no amor fraterno, e não na competitividade desenfreada e conflitos permanentes, sim na humanização das estruturas, não na corrupção ou burocratização, sim na promoção da justiça, não no jogo de interesses ou influências, não nas discussões, sim como sinal de fraternidade e de diálogo, não com o nosso coração cheio de vinagre, sim com o nosso coração cheio de ternura, compreensão e de amor.

5. E termino com uma pequena história. Um carpinteiro manifestou ao patrão que queria reformar-se. O patrão pediu-lhe para lhe construir só mais uma casa. Contra a sua vontade, fez a vontade ao patrão. Construiu a casa com materiais mais fracos, para despachar. Quando acabou a casa, o patrão fez a supervisão e ofereceu-lhe essa casa por ser a última construída por ele. Se soubesse que estava a construir a sua própria casa, de certeza que seria diferente e que seria melhor. Cada um é carpinteiro da sua própria vida. A vida é um projecto que construímos com amor e cuidado, com o melhor material, com muito calor humano. Mais do que  a altura, o comprimento e a largura, a vida e a espiritualidade estão marcadas pela profundidade.

domingo, 11 de março de 2012


QUAL É A VERDADEIRA LITURGIA?

Segundo os dados do Vaticano, acabados de ser anunciados, o número de católicos está próximo de 1 bilião e 200 milhões de pessoas, em 7 biliões de pessoas da humanidade. Os católicos diminuíram na América Latina e na Europa, mas aumentaram na África de 15,15% para 15,55%.
Esta manhã fui concelebrar com o P. Ruffini numa comunidade junto do aeroporto, chamada Nossa Senhora de Fátima.
Mal chegados à sacristia diz o P. Ruffini para um homem:
- Há muito tempo que não te vejo aqui.
Diz o homem:
- Mas eu tenho vindo aqui.
P. Ruffini:
- Mas eu não te vejo aqui quando venho.
Diz o homem:
- É que eu fui a outras comunidades.
Mas o P. Ruffini:
- Ah! Mas aqui não tens vindo.
Enfim, confusão de linguagens.
Vamos começar a missa e o P. Ruffini diz que desde Outubro que não vai lá, porque esteve doente na Itália. Um velhote levantou-se e respondeu que, como os padres mudam muito, pensou que tinha sido transferido para o norte.
A missa começa e quando chega ao Senhor tende piedade de nós, todos se ajoelham para o rezar. É a primeira vez que vejo uma comunidade ajoelhar-se para rezar o Senhor tende piedade de nós.
Lá a missa continuou com mais de 500 pessoas a responder e a cantar.
A homilia foi traduzida pelo senhor Castigo Salvador Mabasa que lá ia aumentando um pouco ao que nós dizíamos. Traduziu em changana, mas o povo também percebe ronga, outro dialecto conhecido.
Quando chega a altura dos avisos, chega um jovem e diz que apesar de ser o terceiro domingo da quaresma, só agora chegou a mensagem do papa para a quaresma e vamos lê-la. Perguntei ao P. Ruffini se a ia ler toda. Assim foi e as pessoas estavam todas atentas. E depois chegaram outros breves avisos, sem ninguém se mexer da igreja.
Começamos as 8.30h e terminámos às 10.30h, estando todos contentes, satisfeitos e a conversar cá fora.
É possível isto na Europa?
Não será por estas eucaristias e liturgias vivas que o número de católicos está a aumentar em África?
Usando uma linguagem africana, desculpem lá, mas vim da igreja para casa com estas ideias a ferver na cabeça e depois cozinhei-as aqui para vós.

Adérito Gomes Barbosa, scj
Maputo, 11 de Março de 2012
  


sábado, 10 de março de 2012


NAMPULA INTERMITENTE

Caríssimos amigos

Como sabeis, esta minha viagem a Nampula tinha como objectivo fundamental o exame dos projectos de doutoramento em Ciências da Educação, na Universidade Católica de Moçambique, em Nampula. Viagem muito rápida para a distância: onze horas de voo de Lisboa a Maputo e mais duas horas de voo de Maputo até Nampula.
No que se refere à viagem, apesar de longa e cansativa, correu bem, assim como o acolhimento nas casas dos padres dehonianos quer em Maputo quer em Nampula.
Este acolhimento é algo que já nos é habitual, podendo confirmar isso também os voluntários que passam por Maputo para Molocuè ou Lichinga.


Os exames dos projectos de doutoramento decorreram com competência e seriedade, tendo vindo para os júris: Prof Doutor Joaquim Azevedo, Prof Doutor José Matias, Professora Doutora Isabel Baptista, Prof Doutor Lagarto, Prof Doutora Vânia e Prof Doutor Adérito Barbosa, além do Prof Doutor Fernando Canastra que é português, mas é professor em Nampula.




Mesmo assim, no dia 4 de Março, fui até ao mosteiro de Rex orientar um retiro para 40 leigos sobre a doação e o dar, dar-se, mais concretamente: não se pode amar sem dar.


Depois deste domingo, em cheio em Rex, comecei os trabalhos na UCM e regressei hoje a Maputo.


No entanto, esta noite do dia 8 de Março, houve tiroteio, entre a Renamo a Frelimo, provocando alguns mortos e mais ou menos 30 detidos.
As lojas ficaram fechadas durante o dia de hoje. As pessoas foram aconselhadas a ficarem nas suas casas e em muitas ruas a própria polícia não deixava passar. Consegui chegar ao aeroporto, já que o tiroteio era na Rua Sem Medo, para os lados do Bairro Expansão exactamente oposto ao aeroporto. Foi um dia complicado em Nampula.

Adérito Gomes Barbosa

Maputo, 8 de Março de 2012







segunda-feira, 5 de março de 2012

De Timor

Caríssimos amigos, familiares e queridas irmãs!
A vida por Timor Leste continua a ser real e sentida, e partilhar convosco é sempre um momento emocionante e quase sagrado, faz-me sentir mais próxima de cada um, sei também que todos vós vos sentireis um pouco mais próximos deste longínquo mundo no final da Asia.

Iniciámos a quaresma, para a maioria de nós um tempo de introspeção e reflexão que nos leva a compreender o verdadeiro sentido de sermos cristãos, filhos de Deus e irmãos em Cristo, é belo isto, é até uma ternura pensar que estamos nessa unidade, quer estejamos na Europa ou na Asia.
Há uma semana atrás, estive em Díli, como muitos de vós soubeste, periodicamente temos de lá ir, buscar mantimentos, tratar de alguns documentos, ver o correio que é só para lá que vai, e estar com a “nossa família adotiva”, os nossos padres jesuítas e a Mana Lina, com eles partilhamos as dificuldades, pedimos conselhos, questionamos e esclarecemos as nossas dúvidas, é mesmo, acreditem um momento familiar, um privilégio belíssimo!

 Para chegarmos a Díli fazemos uma longa viagem de 4horas e meia e desta vez foi um terrível dia inteiro. Saímos de casa pelas 7horas da manhã, todas satisfeitas e a pensar, lá vamos para a civilização, e a uns 20km da saída de Maliana, encontrámos a estrada cortada por uma montanha de lama que desceu e atulhou completamente a estrada fazendo a mesma desaparecer, bem eu abri os meus olhos incrédula com tal confusão naquela impossibilidade.

 Já lá andavam as maquinas a limpar, mas nunca imaginámos o desfeche daquilo, foram horas e horas de espera, à hora do almoço fomos comer qualquer coisa lá num cantinho e voltámos ao nosso lugar de espera, estávamos quase a desistir quando reparámos que estávamos encurraladas por carros e camiões por todo lado também para passar, resultado tivemos de esperar. Por volta das 6horas da tarde, começou a passar os primeiros carros, mas aquilo era mesmo um buraco de lama aberto, comecei logo a imaginar eu dentro do jipe a ficar lá enterrada, então decidi subir lá a um montezinho e ver o alcance daquela passagem e fiquei toda a tremer e pensei: não vamos conseguir sair daqui! E, entretanto chegou mesmo a nossa vez, as duas dentro do jipe a toda a força, tração às 4rodas e toca a encarar a realidade, bem na curva, o jipe não respondeu e aconteceu mesmo, ficámos presas na lama, mas como tínhamos uma multidão a observar, tudo foi possível com a ajuda de todos, eu claro saí do jipe, respirei fundo e pus os pés no chão ou melhor na lama até aos artelhos, com o apoio de dois timorenses consegui andar para terra seca e a ir.Olívia, a corajosa, ficou a dar conta do jipe com mais dois timorenses que em muito poucos minutos tiraram o jipe. Lá fomos e continuamos a nossa dura viagem até Díli, com os mais incríveis obstáculos: cabras no meio da estrada deitadas, que nos faziam o favor com muito má vontade de se levantarem para nós passarmos, vacas, cães, lagos de água com a acumulação das chuvas, noite escura porque já passava das 7horas da tarde, precipícios junto ao mar, montanha acima, montanha abaixo, mas chegámos pelas 11horas da noite sãs e salvas, graças a Deus! O nosso jesuíta, Pe. Martins costuma dizer-nos: rezem sempre o ato de contrição no inicio da viagem e no final agradeçam o ter chegado, e acreditem cumprimos. A emoção de cada instante faz-nos descarregar a adrenalina que temos acumulado ao longo de toda nossa vida! No dia seguinte ainda estávamos atordoadas com tal experiência!
Mas a estadia em Díli foi tranquila e muito bem aproveitada com tudo o que precisámos de fazer, ir à embaixada de Portugal é quase um ato obrigatório, assim como cumprimentar o senhor embaixador de Portugal que nos encontrou na rua, parou o carro e questionou dizendo: mas o que andam aqui a fazer em Díli? Quase que nem o conhecíamos com esta abordagem tão próxima! Era carnaval e aproveitámos para dar uma volta a pé enquanto esperámos que a oficina nos lavasse o jipe porque tinha tanta lama que até andava mal.
A nossa visita por Díli desta vez teve uma dimensão mais densa, decidimos percorrer a baía de Díli até à praia de Cristo Rei, fiquei completamente extasiada com aquela beleza, aquele longínquo mar indico donde podíamos ver a chamada Ilha de Timor, com um belíssimo berço para as nuvens que nela pousavam.

 No outro lado bem lá no alto, estava Ele, o Cristo, o Rei, que como em Almada está de braços abertos para o Mar, comovente, tocante e profundamente espiritual todo aquele percurso que palmilhámos, o coração quase que não me cabia dentro do peito, o esforço que fiz para não gritar por Cristo ao vê-lo naquele monte tão alto e tão estratégico em termos de lugar!
Descemos á praia e brincámos um pouco com duas crianças que assim que nos viram, gritavam: tira foto, tira foto!



 A ir.Olívia dizia também encantada com o percurso: “aqui vê-se e sente-se que andou por aqui Deus, já vista a cor das águas e o verde das montanhas?” De facto aquele dia foi diferente, não só por aquele percurso mas também pelos acontecimentos que foram surgindo milagrosamente naquela tarde, que não irei falar deles agora, mais lá para a frente…noutra partilha! Este era também o primeiro dia da quaresma!

No dia seguinte regressámos a Maliana, e continuámos a deslumbrar a beleza do que envolve a ilha de Timor e, bem no final da travessia junto ao Mar, deparámo-nos com a curiosa divisão entre os dois mares, Indico e pacífico, esta divisão podem vê-la nas suas duas cores de azul no horizonte, muito bonito mesmo!

 Termino por agora, desejando-vos muita alegria e saúde e que a chuva vos visite em Portugal, aqui quando vem temos sempre a sorte de ficar com uma lagoa natural em frente à porta de casa!
São bênçãos!

 Um abraço amigo…